segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Eu queria sentar pra tomar um café contigo. Tem que ser de manhã, é quando seu rosto fica mais bonito. Preciso te contar que eu descobri que não tem cheiro mais gostoso de que o seu e de como é estranho cheirar tanta gente procurando um cheiro só. Pode ser naquele café de esquina, o das janelinhas amarelas, que tem o leite de amêndoas que você adora. Você nem precisa falar nada, agora eu entendo seu silêncio. Nunca mais vou confundir conforto com tédio, eu só quero sentir seu cheiro.
Gosto do jeito que ele se mistura com a fumaça do café, com a terra molhada pela primeira chuva depois da seca, com uma tangerina sendo descascada, gosto até com a fumaça do cigarro, embora eu ache mesmo que você deva parar de fumar. Eu não dei valor a esse cheiro, mas eu não sabia, eu juro. Não ligo que tenha passado por outros narizes, meu medo é que algum deles tenha descoberto o que eu descobri.

Às vezes eu finjo que você saiu rapidinho e já volta, ou que estou te esperando chegar do trabalho. Queria eliminar do nosso roteiro metade das minhas falas. Como Narciso no espelho, eu pensava mesmo que minha vida era importante demais pra ser tão comum. Eu queria devolver pros nossos corpos a intimidade com que se tocavam, é engraçado como ela é a primeira coisa a ir embora. Não há sensação mais corrosiva do que o arrependimento, que saudade do seu cheiro. 
Eu queria mesmo sentar pra tomar aquele café. 

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