Eu queria sentar pra tomar um
café contigo. Tem que ser de manhã, é quando seu rosto fica mais bonito.
Preciso te contar que eu descobri que não tem cheiro mais gostoso de que o seu
e de como é estranho cheirar tanta gente procurando um cheiro só. Pode ser
naquele café de esquina, o das janelinhas amarelas, que tem o leite de amêndoas
que você adora. Você nem precisa falar nada, agora eu entendo seu silêncio.
Nunca mais vou confundir conforto com tédio, eu só quero sentir seu cheiro.
Gosto do jeito que ele se mistura
com a fumaça do café, com a terra molhada pela primeira chuva depois da seca,
com uma tangerina sendo descascada, gosto até com a fumaça do cigarro, embora
eu ache mesmo que você deva parar de fumar. Eu não dei valor a esse cheiro,
mas eu não sabia, eu juro. Não ligo que tenha passado por outros narizes, meu
medo é que algum deles tenha descoberto o que eu descobri.
Às vezes eu finjo que você saiu
rapidinho e já volta, ou que estou te esperando chegar do trabalho. Queria
eliminar do nosso roteiro metade das minhas falas. Como Narciso no espelho, eu
pensava mesmo que minha vida era importante demais pra ser tão comum. Eu queria
devolver pros nossos corpos a intimidade com que se tocavam, é engraçado como
ela é a primeira coisa a ir embora. Não há sensação mais corrosiva do que o
arrependimento, que saudade do seu cheiro.
Eu queria mesmo sentar pra tomar
aquele café.