sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Doença

                Olha, eu sinto um monte de coisas. Sinto tanta coisa num dia só que nem cabe num diagnóstico psiquiátrico. Às vezes eu penso que perdi o fio da meada, metade do tempo eu acho que nenhuma meada tem fio. O negócio é que essa coisa da meada começou quando o homem passou operar a máquina, e eu não sou dada a operar máquina nenhuma, muito menos a operar como máquina, mas parece que hoje só máquina opera.
                Ninguém consegue sentir tudo o que precisa, todo mundo precisa mesmo é funcionar. Tem um bando de remédio que te ajuda a existir, a indústria é tão perfeita que até isso produz. Tem a pílula que te derruba de noite, tem a que te acorda de manhã. Tem aquela que massacra a dor e, se é disso que você precisa, tem a que a produz. Tem até uma montanha de especialista, formado, estudado e preparado pra te escutar ao longo de uma hora semanal. Aliás, tudo hoje exige diploma. A legitimidade das coisas mora nele, e ai de quem conta viver como experiência, por que a vida não vale de nada.

                Olha, eu penso mesmo é que sentir está fora de moda e se eu pudesse me ausentar de toda essa faladeira dentro da minha cabeça, o faria de bom grado. Queria ser um autômato, tocando na mesma tecla, funcionando perfeitamente desde sempre, existindo do jeito que o mundo existe. Automático, perfeito, imaculado. A máquina social se auto regula, mas cria alguns filhos doentes que não necessariamente querem tomar do seu remédio, mas o fazem por que precisam. O negócio é que nem toda doença tem cura e nem todo doente quer ser curado.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Eu queria sentar pra tomar um café contigo. Tem que ser de manhã, é quando seu rosto fica mais bonito. Preciso te contar que eu descobri que não tem cheiro mais gostoso de que o seu e de como é estranho cheirar tanta gente procurando um cheiro só. Pode ser naquele café de esquina, o das janelinhas amarelas, que tem o leite de amêndoas que você adora. Você nem precisa falar nada, agora eu entendo seu silêncio. Nunca mais vou confundir conforto com tédio, eu só quero sentir seu cheiro.
Gosto do jeito que ele se mistura com a fumaça do café, com a terra molhada pela primeira chuva depois da seca, com uma tangerina sendo descascada, gosto até com a fumaça do cigarro, embora eu ache mesmo que você deva parar de fumar. Eu não dei valor a esse cheiro, mas eu não sabia, eu juro. Não ligo que tenha passado por outros narizes, meu medo é que algum deles tenha descoberto o que eu descobri.

Às vezes eu finjo que você saiu rapidinho e já volta, ou que estou te esperando chegar do trabalho. Queria eliminar do nosso roteiro metade das minhas falas. Como Narciso no espelho, eu pensava mesmo que minha vida era importante demais pra ser tão comum. Eu queria devolver pros nossos corpos a intimidade com que se tocavam, é engraçado como ela é a primeira coisa a ir embora. Não há sensação mais corrosiva do que o arrependimento, que saudade do seu cheiro. 
Eu queria mesmo sentar pra tomar aquele café.