Olha,
eu sinto um monte de coisas. Sinto tanta coisa num dia só que nem cabe num
diagnóstico psiquiátrico. Às vezes eu penso que perdi o fio da meada, metade do
tempo eu acho que nenhuma meada tem fio. O negócio é que essa coisa da meada
começou quando o homem passou operar a máquina, e eu não sou dada a operar
máquina nenhuma, muito menos a operar como máquina, mas parece que hoje só
máquina opera.
Ninguém
consegue sentir tudo o que precisa, todo mundo precisa mesmo é funcionar. Tem
um bando de remédio que te ajuda a existir, a indústria é tão perfeita que até
isso produz. Tem a pílula que te derruba de noite, tem a que te acorda de
manhã. Tem aquela que massacra a dor e, se é disso que você precisa, tem a
que a produz. Tem até uma montanha de especialista, formado, estudado e
preparado pra te escutar ao longo de uma hora semanal. Aliás, tudo hoje exige
diploma. A legitimidade das coisas mora nele, e ai de quem conta viver como
experiência, por que a vida não vale de nada.
Olha,
eu penso mesmo é que sentir está fora de moda e se eu pudesse me ausentar de
toda essa faladeira dentro da minha cabeça, o faria de bom grado. Queria ser um autômato, tocando na mesma tecla, funcionando perfeitamente
desde sempre, existindo do jeito que o mundo existe. Automático, perfeito,
imaculado. A máquina social se auto regula, mas cria alguns filhos doentes que não
necessariamente querem tomar do seu remédio, mas o fazem por que precisam. O
negócio é que nem toda doença tem cura e nem todo doente quer ser curado.